terça-feira, 30 de abril de 2013
A destruição de Património Arqueológico na Assembleia Municipal de Oliveira de Azeméis
Comunicação efectuada na Assembleia Municipal de 30 de Abril de 2013Assunto: Destruição de património arqueológico no concelho
de Oliveira de Azeméis
Exmo. Sr.
Presidente da Assembleia Municipal de Oliveira de Azeméis,
Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal,
Exmos. Srs.
Vereados, Deputados e Presidentes de Junta,
Exmos. Srs.
dos Órgãos de Comunicação Social,
Senhoras e
Senhores,
Muito boa noite.
Como jovens
oliveirenses, licenciados em arqueologia, vimos alertar para um conjunto de
situações de destruição de património arqueológico do concelho.
Ao longo dos últimos anos, têm
sido realizadas várias obras lesivas para o nosso património arqueológico, que
condicionam o conhecimento da nossa história e identidade local, reduzindo
consequentemente a nossa importância no panorama nacional.
Infelizmente, neste último ano, o
número destas situações tem vindo a aumentar, levando-nos a alertar – informal
e formalmente – os organismos locais e nacionais com responsabilidades de protecção
e salvaguarda do património cultural.
As empreitadas em causa estão
maioritariamente ligadas a reflorestações e limpezas de mato; abertura e
pavimentação de caminhos; restauro de capelas e igrejas, bem como obras de
melhoramento das áreas envolventes.
São obras promovidas por privados
e, por vezes, até por entidades públicas em espaços que estão bem identificados
no nosso PDM como sítios ou zonas de sensibilidade arqueológica, o que faria
supor a existência de um rigoroso licenciamento e uma avaliação dos riscos
patrimoniais que as obras teriam para os sítios.
Ao longo do último ano
identificamos alguns destes casos, nomeadamente:
·
Outeiro do Castro/Parque da La-Salette, em
Oliveira de Azeméis;
·
Monte de São Marcos, em Fajões;
·
Castro de Recarei em S. Martinho da Gândara;
·
Castro de Ossela, em Ossela;
·
Igreja de Ul, em Ul, sendo que apenas esta
última não está incluída em PDM, apesar de desconhecermos se está ou não
salvaguardada através do “regulamento municipal sobre o património”.
Infelizmente:
ü
A frequência destas acções lesivas para o nosso
património, que se perde irremediavelmente, e que certamente ocorrem em maior
número do que aquele que temos conhecimento;
ü
O aumento exponencial do número de edifícios
históricos abandonados e devolutos a degradarem-se, colocando em risco a segurança
pública, em certos casos;
ü
O tratamento demorado e passivo a que têm sido
sujeitas as comunicações formais e denúncias oficiais junto da Câmara Municipal;
ü
A ausência de informação oficial que aponte para
os relatórios técnicos da câmara ou estudos prévios às obras, que comprovem a
legalidade destas obras e estabeleçam as respectivas condicionantes e medidas
minimizadoras e compensatórias para o património leva-nos a concluir que
estamos perante um grave problema.
Este
problema, parece existir no processo de licenciamento de obras, no que toca à
protecção, salvaguarda e valorização destes espaços patrimoniais, importantes
para todos os oliveirenses e futuras gerações, mas também, com um potencial
turístico inegável, se fossem tomadas medidas no sentido de os tornar
acessíveis ao público.
Sabemos ainda, pela experiência
das nossas intervenções, que a fiscalização e os embargos dessas obras não se
têm revelado tão produtivas na busca de soluções, após os incidentes, como
seria desejável. Observa-se também um grande distanciamento entre proprietários
de terrenos com condicionantes arqueológicas e a Câmara Municipal e uma total
falta de comunicação entre as partes, que certamente evitaria muitas destas
situações.
O nosso objectivo, ao apresentar
hoje aqui estas situações, não passa por apontar o dedo ou encontrar os
culpados.
Queremos proteger o património
cultural oliveirense, preservar as infra-estruturas que fazem parte da nossa
história e do passado do nosso concelho.
Queremos tentar valorizar o pouco
que ainda resta e que pode ser útil para explicar como viviam os nossos
antepassados neste território, que actualmente se chama Oliveira de Azeméis.
Queremos alertar que, para além
da importância histórica destes locais, estes sítios podem ser um verdadeiro
motor económico e turístico do nosso concelho, à semelhança do que se passa
noutros municípios.
Estamos aqui porque não podemos
compactuar deontologicamente, moralmente e eticamente, com os ataques que, a
nossa geração, tem sucessivamente feito ao nosso passado, sem que sejam tomadas
medidas mínimas de prevenção e de conservação desses sítios históricos, que
sobreviveram séculos e séculos sem sofrerem tantos danos como neste curto
espaço de tempo actual.
Desta forma, propomos e colocamos
à consideração desta Assembleia Municipal e da Câmara Municipal de Oliveira de
Azeméis que promovam uma série de acções que, acreditamos, podem ajudar em
muito à preservação da nossa memória colectiva e a perpetuar o nome deste concelho
nos Annaes da História.
Em primeiro lugar, parece-nos
necessário que, em local próprio, talvez uma Comissão, se apurem as
responsabilidades dos falhanços de licenciamento destes e outros processos
semelhantes e se estabeleça um código de práticas que permita colocar um ponto
final a esta série de más práticas, tendo como missão verificar rapidamente se
existem falhas de comunicação que possam ser supridas entre os técnicos e
divisões da Câmara Municipal.
Em segundo, é da maior importância que a Câmara Municipal identifique e
entre em contacto com todos os proprietários dos terrenos localizados em zonas
de sensibilidade patrimonial e arqueológica identificadas em PDM com a intenção
de sensibilizar os mesmos valor patrimonial e da importância histórica do respectivo
local e explicar todos os direitos e deveres legais a que estão sujeitos,
impedindo assim que o desconhecimento seja usado como atenuante de acções
danosas sobre o nosso património.
Em terceiro, que sejam tomadas medidas, pela Câmara
Municipal, a curto prazo que minimizem, estudem e compensem, as zonas já
afectadas.
Por último,
propomos ainda que seja efectuado um estudo sobre o estado de
conservação/degradação das zonas assinaladas em PDM, que possa ser tornado
público e debatido, tendo o objectivo de criar e apresentar medidas concretas a
aplicar nesses mesmos sítios, face ao seu estado de degradação, de risco e de
pressão destrutiva.
Em conclusão, queremos ainda
dizer frontalmente a Vossas Excelências que comentários como: “Lá, não existe
nada!”, ou “Aquilo é uma lixeira!”, ou ainda ”Aquilo está tudo partido e por
isso não presta e não é importante!”, não correspondem à verdade, como Vossas
Excelências certamente sabem, cabendo a todos os responsáveis dentro desta sala
dizer isso mesmo e explicar que as regras dos licenciamentos foram feitas para
serem cumpridas, e que se os sítios foram colocados sob protecção em PDM, ou
até, como o Castro de Ossela, estão classificados como Imóvel de Interesse
Público, houve uma razão legítima para tal acontecer.
Compete a todas as pessoas dentro
desta sala explicar a importância histórica do nosso concelho e implementar
todas as medidas de salvaguarda, protecção e valorização dos sítios que possam
ser relevantes para o desenvolvimento e prestígio de Oliveira de Azeméis.
Cabe a todos os oliveirenses, com
ou sem responsabilidades políticas, com ou sem responsabilidades técnicas ou
executivas, dizer: “Basta, de destruir! Vamos preservar e recuperar o nosso
património.”
Porque conhecer o nosso passado é
tão importante como construir o nosso futuro e porque as actuais e novas
gerações de oliveirenses merecem conhecer melhor a história deste território,
compete a esta Assembleia Municipal e a este Executivo Camarário ser a primeira
linha de defesa da histórica do concelho de Oliveira de Azeméis, porque tudo o
que é destruído hoje não é recuperado amanhã.
Se, no caso da construção da
barragem em Foz Côa, na década de noventa, se utilizou o slogan “As gravuras
não sabem nadar”, para defender um inestimável Património da Humanidade, o que
aqui fizemos hoje não foi mais do que dizer que “Os sítios arqueológicos não
sabem falar” e, única e exclusivamente por isso, falamos nós aqui por eles.
Fernando Neves
Mariana Feijão
Sara Almeida Silva
terça-feira, 9 de abril de 2013
Apontamentos a propósito da destruição de património arqueológico em Oliveira de Azeméis
Notícia do Jornal Correio de Azeméis de 09-04-2013, referente à reunião de executivo camarário, onde se levantou a questão "Castro de Ossela"
Artigo de Opinião do Dr. Rui Luzes Cabral (Presidente da Junta de Freguesia de Loureiro, Oliveira de Azeméis) sobre a salvaguarda do património cultural
http://www.politica.queiramais.com/index.php/opiniao-menu/luzes-de-escrita/367-salvaguarda-do-patrimonio-cultural
segunda-feira, 8 de abril de 2013
Novidades sobre o Castro de Ossela
No
seguimento da denúncia realizada Destruição
de Património Arqueológico no Concelho de Oliveira de Azeméis - Castro de
Ossela e de um pedido de esclarecimento à Junta de Freguesia de Ossela foi
agendada uma reunião com o executivo com o intuito de “(…) ajuizar todo o
passado, e, projectar o futuro.” do sítio arqueológico.
Assim,
no passado dia 5 de Abril de 2013, reunimos com os representantes do executivo
da Junta de Freguesia de Ossela e da Comissão de Festas de Nossa Senhora do
Crasto.
Inicialmente,
fomos esclarecidos sobre as intenções do projecto de reabilitação da zona
envolvente à capela e informados dos desenvolvimentos de todo o processo da
empreitada até ao embargo das obras.
No
seguimento da reunião, apresentamos aos presentes as nossas preocupações e
postura sobre o assunto e quais são as possíveis soluções e eventuais medidas a
curto e longo prazo a ser implementadas no Castro de Ossela.
Na
nossa opinião, a reunião foi muito produtiva e construtiva, pois verificamos o
início de uma vontade política dos intervenientes para unir os interesses
arqueológicos, com os interesses religiosos num objectivo comum de reabilitação
do espaço envolvente da capela de Nossa Senhora do Crasto. Ou seja, sentimos
pela primeira vez que há vontade de integrar o sítio arqueológico nos planos de
reabilitação da capela, valorizando-o verdadeiramente como um local de
Património de Interesse Público.
Contudo,
ao longo da reunião, concluímos que:
Actualmente existe um
problema no processo de licenciamentos da Câmara Municipal de Oliveira de
Azeméis que necessita urgentemente de ser investigado e resolvido pelas
autoridades locais competentes;
Estas situações de
destruição de património cultural são o resultado da falta de acompanhamento
dos técnicos da Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis que não sensibilizam os
proprietários dos terrenos protegidos em PDM e demais interessados, nem lhes
transmitem quais são os seus direitos e deveres;
Estas situações vão
continuar caso não haja uma mudança do actual paradigma político relativamente
à valorização e protecção do património cultural oliveirense.
Aproveitamos
ainda este espaço para agradecer publicamente à Junta de Freguesia de Ossela e
da Comissão de Festas pela reunião e apelar para que este assunto não fique no
esquecimento.
Sabemos
que este embargo causa constrangimentos à Comissão de Festas, nos planos que
tinha para a festividade deste ano, pelo que sugerimos formas alternativas para
os sanitários e deixamos claro que a única intenção que tivemos foi a da defesa
do património arqueológico da freguesia.
Fernando
Neves (Licenciado em Arqueologia)
Mariana
Feijão (Mestre em Arqueologia)
Sara
Almeida Silva (Mestranda em Arqueologia)
(Naturais
e residentes no concelho de Oliveira de Azeméis)
terça-feira, 2 de abril de 2013
Da Comunicação Social - Destruição do Património no Concelho de Oliveira de Azeméis - Diário de Coimbra
Destruição de Património do Concelho de Oliveira de Azeméis no Diário de Aveiro
A Destruição de Património Arqueológico no Concelho de Oliveira de Azeméis, hoje (02-04-2013), no Diário de Aveiro.
quinta-feira, 28 de março de 2013
Algumas respostas IV - Qual é a nossa postura e soluções (imediatas e a médio longo prazo) para o problema do Castro de Ossela?
A propósito das denúncias que têm
vindo a ser expostas por nós, colocamos hoje uma série de questões, às quais
damos resposta, com o objectivo de esclarecer o que podem ser pontos
problemáticos para a maioria das pessoas.
4 – Qual a nossa postura sobre o
assunto, quais as soluções imediatas, a médio e longo prazo para o problema?
4- Qual é a
nossa postura/soluções imediatas e a médio longo prazo para o problema?
Apesar da nossa estreita ligação à arqueologia, somos
jovens oliveirenses que não se conformam com a consecutiva destruição do
património e, por essa razão, optamos pela denúncia e divulgação destas
situações. O nosso interesse é puramente o da protecção e salvaguarda do
património do concelho. Nenhuma das nossas acções foi desencadeada por motivos
de interesse pessoal ou político. É importante vincar que a obra de construção
(com terraplanagens, escavação e movimentação de terras) destruiu parte do
Castro de Ossela, sendo mais um duro golpe no conhecimento histórico do sítio.
Estes danos podiam ter sido evitados se tivesse existido um projecto
arquitectónico que contemplasse um parecer técnico de arqueologia e o
respectivo acompanhamento das obras.
No entanto, não tendo sido contempladas as medidas
preventivas face ao impacto destas obras, urge tomar medidas de minimização,
pois o risco da continuação de destruição parcial do Castro de Ossela é
iminente.
Desta
forma, acreditamos que se deve elaborar um plano de trabalhos arqueológicos,
que consagre uma série de acções importantes na salvaguarda dos bens e sítio
arqueológico.
A
primeira acção deve passar pela caracterização do local, tendo em vista a
realização de uma escavação arqueológica
de emergência, que deve ser antecedida por uma levantamento e registo
exaustivo das acções danosas que decorreram no local até à data. Deve
registar-se (fotografia e desenho) e caracterizar-se, as estruturas visíveis,
bem como a estratigrafia onde se reconheçam indícios da ocupação arqueológica
do sítio, em particular nas zonas afectadas, nas zonas a afectar com a
continuidade do projecto (caso se verifique) e no restante esporão.
Simultaneamente, deve ser recolhida a totalidade de material existente à
superfície nas zonas de obra, mas também no local onde se depositaram as
terras, se necessário, com recurso ao crivo das mesmas.
Para
tornar possível uma correlação estratigráfica dos materiais, e uma correcta
leitura da ocupação, deveria promover-se uma sondagem em zona não afectada
pelas obras.
Após
a conclusão dos trabalhos de campo e análise sumária dos seus resultados, devem
ser decretadas medidas de compensação para o sítio arqueológico, que podem
passar pela conservação e restauro de estruturas e materiais arqueológico até à
criação de um pequeno centro interpretativo no local, onde se depositem os
materiais recuperados, e que torne possível uma visita de âmbito mais turístico
ao sítio.
O
relatório final dos trabalhos arqueológicos deve ser tornado público e
acessível aos munícipes, bem como devem ser publicados os resultados em revista
da especialidade ou de carácter local.
quarta-feira, 27 de março de 2013
Algumas respostas III - Quais as obras em curso, os seus objectivos e de que forma podiam ser evitadas?
A propósito das denúncias que têm
vindo a ser expostas por nós, colocamos hoje uma série de questões, às quais
damos resposta, com o objectivo de esclarecer o que podem ser pontos
problemáticos para a maioria das pessoas.
3 – Quais as obras em curso, os
seus objectivos e de que forma podiam ser evitadas?
| |
|
3 – Quais as obras em
curso, os seus objectivos e de que forma podiam ser evitadas?
Ao longo dos tempos o Castro de Ossela sofreu
várias obras que afectaram e destruíram informações fundamentais para uma
melhor compreensão e interpretação histórica e cronológica do povoado.
Todas essas obras estão relacionadas com a Capela
de N. Srª do Crasto e a sua romaria, e foram executadas para requalificar o
espaço, tornando-o mais atractivo e aprazível aos seus visitantes.
É com essa justificação que – ao longo dos
séculos – se têm verificado constantes acrescentos e restauros da
infra-estrutura da capela, mas também várias obras realizadas recentemente,
como, por exemplo, abertura mecânica
de um caminho de terra batida e uma terraplanagem
para melhorar a acessibilidade dos visitantes, a construção de um parque de merendas para servir a comunidade local
e combater o isolamento, tal como várias limpezas
de mato, reflorestações e a
construção de um cruzeiro para embelezar o espaço.
Todas essas pequenas obras parcelares de
melhoria da área circundante da capela
ameaçam a preservação e valorização da integridade do Castro de Ossela,
consequentemente colocando em perigo a classificação
de Imóvel de Interesse Público conseguida em 1997.
No passado dia 20 de Março fomos alertados por
uma fonte anónima de um embargo da
Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis a umas obras ilegais no Castro de Ossela.
Preocupados com a situação visitamos o local e
constatamos, um verdadeiro crime
patrimonial, que aliado a um conjunto de outros atentados recentes,
culminou com a nossa vontade alterar o rumo que o nosso concelho leva neste
campo de preservação do património cultural imóvel oliveirense.
Assim,
optamos por recolher todo o tipo testemunhos necessários à concretização de uma
denúncia oficial às autoridades da
tutela e uma comunicação pública intitulada “Destruição de Património
Arqueológico no concelho de Oliveira de Azeméis”.
Desta forma, com base em fontes orais e nas
nossas visitas in loco ao Castro de
Ossela recolhemos as seguintes informações:
-
O promotor da obra é a Comissão de Festas/ fabriqueira local;
-
O objectivo é construir umas casas de banho, um palco e um bar nas imediações
da capela para usufruto nas festas a realizar em Agosto;
- A primeira vala foi
escavada antes do dia 20 de Março de 2013;
- As obras terão sido iniciadas
com o conhecimento da Junta de Freguesia de Ossela e da Câmara Municipal de
Oliveira de Azeméis;
- A Junta e a Câmara
municipal terão participado e disponibilizado alguns meios mecânicos para
abertura da vala de fundação das infra-estruturas;
- Não existiu nenhum
projecto arquitectónico, nem plano de minimização do impacto arqueológico do
local, tal como não terão aprovadas licenças e autorizações oficiais pelos
técnicos da câmara municipal, apesar dos promotores da obra referirem a
legitimidade dos trabalhos;
- Posteriormente à
escavação da primeira vala foi realizado um embargo oficial pelos serviços de
fiscalização da câmara municipal;
- Nos dias 23 e 24 de
Março de 2013 houve um desrespeito ao embargo da Câmara Municipal, pois
testemunhamos pessoas e máquinas no local, verificando ainda um alargamento da
primeira vala e a escavação de uma segunda na zona do parque de merendas;
- Os voluntários que
escavaram as valas e a Comissão de Festas desconheciam o embargo da obra;
- As terras movimentadas
mecanicamente estão depositadas na margem Oeste, sensivelmente a meio do
caminho de terra identificado como Quinta do Crasto em direcção ao lugar de
Baralhas;
- Verificou-se a existência
de um elevado número de material de construção, cerâmica comum, escória e um
fragmento de mó, tal como uma grande dispersão e número de pedras oriundas da
escavação mecânica;
- Numa análise
superficial do corte da vala de fundação constatamos um elevado potencial
estratigráfico da zona de ocupação. Foram ainda identificadas estruturas
cortadas pela vala e um elevado número de matérias arqueológicos dispersos no
corte estratigráfico;
- Nas imediações da
capela aparecem à superfície alinhamentos de pedra seguramente pertencentes a
estruturas do povoado (a superficialidade das estruturas pode estar relacionada
com as escavações do início do séc. XIX);
- Foi recolhido um
testemunho oral de uma pessoa que participou na exumação de ossadas dentro da
capela e presenciou ao seu enterramento de baixo do altar, aquando de obras de
beneficiação, nas quais se levantou o soalho, há já alguns anos. A mesma pessoa
garantiu ainda que a abertura mecânica do caminho de terra de acesso ao topo do
Castro colocou a descoberto uma pia de pedra – actualmente na posse do dono de
um dos terrenos – e muitos materiais cerâmicos;
Na nossa opinião, existiram duas razões directas
que levaram a esta situação de destruição do Castro de Ossela.
A primeira razão é a falta de interesse da
Câmara Municipal Oliveira de Azeméis e da Junta de Freguesia de Ossela por este
património cultural, ou seja, abandono físico e político levaram ao
desconhecimento da Comissão de Festas para o real valor turístico, histórico e
arqueológico.
Em segundo, a falta de visão estratégica. A Junta
de Freguesia poderia ter aconselhado a escolha de outro tipo de equipamentos
que reabilitassem o espaço, isto é, a utilização e aluguer de estruturas
modelares são, por um lado, financeiramente mais viáveis, mais práticas e
fisicamente menos destrutivas. E, por outro lado, ao serem amovíveis não ficam
susceptíveis a vandalismos e não servem de abrigo a bruxarias e outras
actividades menos próprias.
Por último, a falta de fiscalização e de diálogo
com os promotores das obras e os administradores dos terrenos levaram a um
agravamento da destruição do povoado. Talvez com diálogos prévios e
sensibilização dos técnicos de arqueologia municipais (à semelhança do que
acontece nalguns municípios), aos autarcas locais, comissões de festas (nos
casos em que haja capelas nos sítios ou áreas de sensibilidade arqueológica) e
demais proprietários, a situação hoje vivida em Ossela, não se verificasse. No
entanto, se tal tivesse acontecido e, ainda assim, existissem obras, os seus
promotores nunca se poderiam desculpabilizar com o desconhecimento das normas e
importância histórica/arqueológica daqueles terrenos.
Em conclusão, esperamos que este seja o momento de viragem na salvaguarda e
valorização do Castro de Ossela e se arranjem soluções técnicas e políticas para mudar o paradigma do isolamento
do povoado e este passe a servir verdadeiramente como um motor de desenvolvimento económico daquela freguesia e do nosso
concelho.
Fernando Neves (Licenciado em Arqueologia)
Mariana Feijão (Mestre em Arqueologia) Sara Almeida Silva (Mestranda em Arqueologia) (Naturais e residentes no concelho de Oliveira de Azeméis) |
terça-feira, 26 de março de 2013
Algumas respostas II - Qual o estatuto legal do Castro de Ossela?
A propósito das denúncias que têm
vindo a ser expostas por nós, colocamos hoje uma série de questões, às quais
damos resposta, com o objectivo de esclarecer o que podem ser pontos
problemáticos para a maioria das pessoas.
2 – Qual o estatuto legal do
Castro de Ossela?
2 – Qual o estatuto legal do Castro de Ossela?
O
Castro de Ossela encontra-se registado na Base de Dados do Património
Arqueológico, com o código nacional de sítio 4511.
Além
disso, está classificado como Imóvel de Interesse Público (Decreto 67/97).
Pode ser consultado aqui: http://www.dre.pt/cgi/dr1s.exe?t=dr&cap=1-1200&doc=19974401%20&v02=&v01=2&v03=1900-01-01&v04=3000-12-21&v05=&v06=&v07=&v08=&v09=&v10=&v11=Decreto&v12=67/97&v13=&v14=&v15=&sort=0&submit=Pesquisar
Mas,
o que significa então esta classificação? (Lei de Bases do Património Cultural
– 107/2001).
Um
sítio pode ser considerado de interesse público quando a respectiva protecção e valorização represente ainda um valor
cultural de importância nacional (artigo 15º, nº5).
São
deveres do proprietário de um sítio ou bem classificado conservar, cuidar e proteger devidamente o bem, de forma a assegurar a
sua integridade e a evitar a sua perda, destruição ou deterioração. (artigo
21º, nº1, alínea b).
O
estatuto de sítio classificação pode ser revogado (artigo 30º).
As
situações de perigo para um sítio classificado devem ser comunicadas - O proprietário ou titular de outro direito
real de gozo sobre um bem classificado nos termos do artigo 15º da presente
lei, ou em vias de classificação como tal, deve avisar imediatamente o órgão
competente da administração central ou regional, os serviços com competência
inspectiva, o presidente da câmara municipal ou a autoridade policial logo que
saiba de algum perigo que ameace o bem ou que possa afectar o seu interesse
como bem cultural. (artigo 32).
Em
virtude dessa comunicação e face ao perigo da perda de valor do sítio, é dever
da administração central, regional ou
municipal determinar as medidas provisórias ou as medidas técnicas de
salvaguarda indispensáveis e adequadas, podendo, em caso de impossibilidade
própria, qualquer destes órgãos solicitar a intervenção de outro.(artigo
33º, nº1).
Se as medidas ordenadas importarem para o detentor a obrigação de
praticar determinados actos, deverão ser fixados os termos, os prazos e as
condições da sua execução, nomeadamente a prestação de apoio financeiro ou
técnico. (artigo 33º, nº2)
Além das necessárias medidas políticas e administrativas, fica o
Governo obrigado a instituir um fundo destinado a comparticipar nos actos
referidos no n.º2 do presente artigo e a acudir a situações de emergência ou de
calamidade pública. (artigo 33º, nº3)
Quanto
a planos, programas, obras e projectos a realizar em sítios classificados, sejam
de âmbito público ou privado, estes têm que ser previamente comunicados à
tutela do património se implicarem o risco
de destruição ou deterioração de bens culturais, ou que de algum modo os possam
desvalorizar. (artigo 40º, nº 1). Assim, cabe ao governo ou às autarquias
locais, no âmbito das competências
respectivas, as medidas de protecção e as medidas correctivas que resultem
necessárias para a protecção do património cultural. (artigo 40º, nº2)
As obras ou intervenções em bens imóveis
classificados nos termos do artigo 15º da presente lei, ou em vias de
classificação como tal, serão objecto de autorização e acompanhamento do órgão
competente para a decisão final do procedimento de classificação, nos termos
definidos na lei. (artigo 45º, nº 2). Dizendo-se ainda que, concluída a intervenção, deverá ser
elaborado e remetido à administração do património cultural competente um
relatório de onde conste a natureza da obra, as técnicas, as metodologias, os
materiais e os tratamentos aplicados, bem como documentação gráfica,
fotográfica, digitalizada ou outra sobre o processo seguido. (artigo 45,
nº3).
Se
alguma obra for realizada não respeitando os itens já aqui referidos, esta deve
ser alvo de EMBARGO, por parte do organismo de tutela do estado, ou da
administração local. (artigo 47º, nº1)
Existe
a possibilidade de expropriação quando
por responsabilidade do detentor, decorrente de violação grave dos seus deveres
gerais, especiais ou contratualizados, se corra risco sério de degradação do
bem. (artigo 50º, nº1, alínea a).
No
campo da tutela penal e contra-ordenacional, afirma o artigo 103º que quem, por inobservância de disposições
legais ou regulamentares ou providências limitativas decretadas em conformidade
com a presente lei, destruir vestígios, bens ou outros indícios arqueológicos é
punido com pena de prisão até 3 anos ou com pena de multa até 360 dias. Constituindo
Contra-Ordenação especialmente grave o deslocamento
ou a demolição de imóveis classificados, ou em vias de classificação, fora das
condições referidas nos artigos 48ºe 49.º (artigo 104º, a) e a realização de obras que hajam sido
previamente embargadas de harmonia com o disposto no n.º1 do artigo 47º.
(artigo 104º, b).
Fernando Neves (Licenciado em Arqueologia)
Mariana Feijão (Mestre em Arqueologia)
Sara Almeida Silva (Mestranda em Arqueologia)
(Naturais e residentes no concelho de Oliveira de Azeméis)
Mariana Feijão (Mestre em Arqueologia)
Sara Almeida Silva (Mestranda em Arqueologia)
(Naturais e residentes no concelho de Oliveira de Azeméis)
Algumas Respostas I - Qual a importância do Castro de Ossela?
Castro de Ossela – Algumas
respostas
A propósito das denúncias que têm
vindo a ser expostas por nós, colocamos hoje uma série de questões, às quais iremos dando resposta, com o objectivo de esclarecer o que podem ser pontos
problemáticos para a maioria das pessoas.
1 – Qual a importância do sítio
arqueológico Castro de Ossela?
1 – Qual a importância do Castro de Ossela?
O
Castro de Ossela, localizado no sítio do Crasto, lugar do Carvalhal, freguesia de Ossela, num
esporão sobre o rio Caima, dispondo por isso de boas condições de defesa,
domínio de paisagem e abundantes recursos.
No
topo do povoado implanta-se uma capela, dedicada à Srª do Crasto, cuja
construção, no século XIX, levou ao aplanamento do topo do esporão.
O
local foi escavado, nos inícios do século XX, por Rocha Peixoto, do Museu Municipal
do Porto. Dos resultados materiais da escavação, hoje nada se encontra
identificado (excepção a um peso de tear depositado no Museu Nacional Soares
dos Reis).
Como elementos
defensivos, devia apresentar três linhas de muralhas e um fosso. Há também
relatos de um forno cerâmico, pedras com aparelho almofadado, estruturas
habitacionais de planta circular e rectangular e sepulturas medievais.
Para além de
todos os elementos cerâmicos de cronologia Proto-Histórica, Romana e Medieval,
encontraram-se também vidros, alguns objectos líticos (mós), escória, fíbulas e
fivelas (bronze e ferro), um tesouro numismático de época romana com cronologia
entre o séc. III e V d.C., alguns numismas medievais e, também relacionada com
a ocupação do Castro, um conjunto de braceletes publicadas por Leite de
Vasconcelos, três das quais estão hoje no Museu Nacional de Arqueologia.
Apesar do seu
cariz duvidoso, atribuiu-se ainda ao Castro de Ossela uma inscrição latina que
refere um conjunto de povos e a Legião X.
Apesar dos
danos que a construção da capela já provocou (em obras de requalificação
recentes terão aparecido ossadas), das explorações das pedreiras, das
plantações de espécies como o eucalipto, o sítio continua a ser dotado de uma
importância fulcral para o conhecimento da ocupação do território, possuindo
uma série de características que justificam o investimento em colocá-lo
visitável para o público geral.
A construção
da capela mostra bem o quão importante foi a memória do sítio para Ossela, e a
sua ocupação é conhecida desde o Bronze Final, com importante destaque na
Proto-História, não deixando de ser habitado com a presença romana,
adaptando-se a ela. Sabemos que o sítio foi ocupado de forma intensa e
continuada durante este período. Desconhecemos se foi continuamente ocupado até
ao período medieval, mas foi também, nessa época lugar importante.
Pelos achados
de extrema importância, pela longa ocupação, sucessiva ou não, do esporão do
Castro de Ossela, este sítio constitui um local único, excepcional e de inestimável
valor para o conhecimento da história e da arqueologia do nosso concelho.
Com um
projecto minimamente sustentado, este marco na paisagem de Ossela, poderia
receber visitantes, muito mais que uma vez ao ano, por ocasião da romaria da
Senhora do Crasto.
(Não se
incluíram aqui referências ou citações bibliográficas, que poderão ser
fornecidas a quem as solicitar)
Fernando Neves (Licenciado em Arqueologia)
Mariana Feijão (Mestre em Arqueologia)
Sara Almeida Silva (Mestranda em Arqueologia)
(Naturais e residentes no concelho de Oliveira de Azeméis)
domingo, 24 de março de 2013
Destruição do Castro de Ossela está em curso!
Registo fotográfico da zona afectada do Castro de Ossela, de hoje, domingo.
Inicialmente existia no local uma vala, com cerca de 2,80 metros de profundidade.
Ontem, no local, os trabalhos continuaram, expandindo-se em largura.
Há cada vez mais pedras de estruturas amontoadas... Junta-se ainda a abertura de um rego, com inicio junto ao muro que se via nas fotografias anteriores.Ao mesmo tempo, o depósito de terras, na berma do caminho, cresce.
Hoje, ainda eram visíveis as marcas da maquinaria pesada.
A obra, da Junta de Freguesia inclui-se numa série de melhoramentos previstos para a zona próxima da Capela da Senhora do Crasto, a concluir antes das festividades de Agosto: Sanitários, um palco; um Bar. E todo o acesso entre a Rua do Carvalhal e a entrada da Senhora do Castro deverá ser pavimentado, segundo o programa de investimentos plurianual (http://www.jf-ossela.pt/attachments/article/20/PlanoPlurianualAnual-2012.pdf)...
Sabemos que a cada dia que passa, uma página da História do Castro de Ossela, do concelho de Oliveira de Azeméis, da ocupação proto-histórica dos Túrdulos Velhos, da romanização do Entre Douro e Vouga, desaparece irremediavelmente.
Fernando Neves (Licenciado em Arqueologia)
Mariana Feijão (Mestre em Arqueologia)
Sara Almeida Silva (Mestranda em Arqueologia)
(Naturais e residentes no concelho de Oliveira de Azeméis)
Inicialmente existia no local uma vala, com cerca de 2,80 metros de profundidade.
Ontem, no local, os trabalhos continuaram, expandindo-se em largura.
Há cada vez mais pedras de estruturas amontoadas... Junta-se ainda a abertura de um rego, com inicio junto ao muro que se via nas fotografias anteriores.Ao mesmo tempo, o depósito de terras, na berma do caminho, cresce.
Hoje, ainda eram visíveis as marcas da maquinaria pesada.
A obra, da Junta de Freguesia inclui-se numa série de melhoramentos previstos para a zona próxima da Capela da Senhora do Crasto, a concluir antes das festividades de Agosto: Sanitários, um palco; um Bar. E todo o acesso entre a Rua do Carvalhal e a entrada da Senhora do Castro deverá ser pavimentado, segundo o programa de investimentos plurianual (http://www.jf-ossela.pt/attachments/article/20/PlanoPlurianualAnual-2012.pdf)...
Sabemos que a cada dia que passa, uma página da História do Castro de Ossela, do concelho de Oliveira de Azeméis, da ocupação proto-histórica dos Túrdulos Velhos, da romanização do Entre Douro e Vouga, desaparece irremediavelmente.
Fernando Neves (Licenciado em Arqueologia)
Mariana Feijão (Mestre em Arqueologia)
Sara Almeida Silva (Mestranda em Arqueologia)
(Naturais e residentes no concelho de Oliveira de Azeméis)
Subscrever:
Mensagens (Atom)














