sábado, 28 de novembro de 2009

Gripe A



Estou de volta.

Portanto, há que vos introduzir no tema de hoje: a gripe.

A gripe, como todos sabem (ou deveriam saber), é causada pelo vírus do tipo Influenza, da família dos Orthomyxoviridae, que afecta tanto pássaros como mamíferos, principalmente porcos, vacas, cavalos e humanos.

Os principais sintomas da doença são também muito conhecidos, como a febre, os espirros, a tosse (seca ou com expectoração), os arrepios, a fraqueza geral do corpo (com frequentes dores musculares), por vezes a garganta irritada e dores de cabeça. O estado gripal não preocupa pela doença em si mesmo, mas em termos da sua progressão, porque rapidamente em indivíduos mais frágeis ou imunodeprimidos avança para pneumonia que pode ser fatal, principalmente nos idosos ou nas crianças muito jovens.

Os meios de transmissão da doença já foram também sobejamente descritos em tudo quanto é panfleto, jornal, noticiário e até em publicidades, mas de qualquer forma dizer que é comum transmitir-se o vírus pelo ar, através de tosse ou espirros e mais raramente por contacto directo com secreções nasais ou gotículas de saliva. Como também devem saber, o vírus é facilmente inactivo em superfícies por desinfectantes e detergentes, daí que a lavagem frequente das mãos com sabão é suficiente para o neutralizar e baixar o risco de infecção.

Toda a gente sabe que o vírus Influenza se vai espalhando pelo mundo em epidemias sazonais e é, todos os anos, uma das principais causas de morte no mundo (em anos pandémicos, mata milhões de pessoas) – como dissemos, não pela doença em si, mas pelas complicações que causa. Então mas vocês perguntam: não há uma vacina que se toma todos os anos e que protege contra a gripe? Pois, mas essa vacina é da gripe sazonal, isto é, contém as estirpes que surgem mais regularmente todos os anos, não protegendo contra as estirpes que vão surgindo de tempos a tempos e muito menos não protegendo contra as novas estirpes que vão surgindo todos os anos. O problema principal do vírus é esse: apesar de ser um vírus potencialmente fraco, as suas duas proteínas principais do invólucro nuclear, a hemoglutinina e a neuroaminidase, mutam facilmente, causando o aparecimento de novas estirpes (novas espécies) de Influenza, além de que o vírus vai passando entre animais, mudando de cada vez que infecta um novo ser, tornando-se cada vez mais resistente, o que por sua vez torna muito difícil a tarefa de descobrir uma forma eficaz de erradicar de uma vez por todas este vírus.

Ao longo dos anos, o Influenza tem mudado de forma muitas vezes, tendo algumas dessas estirpes conseguido ser resistentes à maioria dos antivirais e desinfectantes disponíveis no mercado. Durante estas épocas, não só o índice de morbilidade dispara, como também a mortalidade é brutal. E é por isso que se dá o nome de pandemia. Uma pandemia do vírus Influenza é uma epidemia viral que se espalha à escala mundial, afectando uma grande porção da população humana e que já não consegue ser contida. Corresponde ao estádio 6 da escala da OMS. A pandemia mais grave na história foi a da Gripe Espanhola (era também do subtipo H1N1, veremos já o que é isso), que durou entre 1918 e 1920 e matou entre 20 a 100 milhões de pessoas em todo o mundo. É reconhecido como o maior holocausto médico na história da humanidade, sendo que mais de 50% dos mortos eram adultos jovens. Ficou conhecida como a Morte Negra. Para se ver a dimensão da capacidade letal deste vírus, matou 25 milhões em 25 semanas, o que é muito se compararmos com o vírus do HIV/SIDA, que chegou aos 25 milhões de mortos nos seus 25 primeiros anos de ocorrência. Claro que há outros relatos mais antigos na história mundial que batem certo com pandemias gripais, como uma descrita por Hipócrates há 2400 a.C. e outra que Colombo menciona nas Antilhas em 1493. O primeiro surto pandémico reconhecido foi um em 1580, que começou na Rússia e se espalhou até África. Só em Roma morreram mais de 8000 pessoas e muitas cidades espanholas foram dizimadas. Ao longo dos séculos XVII e XVIII continuaram a ocorrem pandemias, sendo a mais grave e mais prolongada a de 1830-1833, em que ¼ da população ficou engripada. De qualquer modo, as pandemias mais recentes na história são a da Gripe Asiática (H2N2), de 1957, que matou cerca de 1,5 milhões de pessoas e a Gripe de Hong Kong de 1968 (H3N2), que matou cerca de 1 milhão. Muito provavelmente, estes números teriam sido muito mais elevados, não tivesse o mundo aprendido com o que se sucedeu com a Gripe Espanhola (já existia nesta altura um conjunto de antibióticos que ajudava a reduzir o risco de infecções secundárias).

Uma pandemia de Influenza ocorre quando uma nova estirpe viral é transmitida aos humanos por outra espécie animal. As espécies mais importantes no aparecimento de novas estirpes são, como já disse, os porcos, as galinhas e os patos. A grande maioria dos vírus Influenza que por aí circulam não nos afecta; só 1% das estirpes causa doença nos humanos. O problema é que estas novas estirpes não são afectadas pelas defesas imunitárias existentes no nosso organismo para outras estirpes mais comuns do vírus, propagando-se assim rapidamente e fora do controlo, afectando um largo número de pessoas até que se comece a fazer alguma coisa. A pandemia mais recente na história é a de agora, a de 2009, a pandemia do vírus da Gripe A (subtipo H1N1), declarada pela OMS a 11 de Junho, altura em que «a Gripe A já atacou mais de 206 países em todo o mundo, com mais de 503000 casos reportados e confirmados em laboratório e com mais de 6000 mortes», o que significa que este vírus já não pode ser contido e tem conseguido transmitir-se entre humanos de forma fácil. O relatório de hoje da OMS dita que a pandemia de 2009 do vírus H1N1 (Gripe A) está actualmente nas 7820 mortes.


Então e agora o que quer dizer Gripe A, Gripe B ou Gripe C? Isso tem a ver com o tipo de vírus Influenza, que tem três tipos principais: A, B ou C. O Influenza A é o mais virulento destas três espécies e é o que causa as doenças gripais mais severas. Tem vários serótipos, sendo os principais: o H1N1 (que causou a Gripe Espanhola e a novel Gripe A), o H2N2 (Gripe Asiática), o H3N2 (Gripe de Hong Kong), o H5N1 (Não sei se ainda se lembram, mas é o serótipo da Gripe das Aves, ainda em vigência!), o H7N7 e o H1N2. Infecta principalmente aves e humanos. O Influenza B afecta quase exclusivamente humanos, sendo ainda comum nos pinípides (focas, leões-marinhos, entre outros). Só tem um serótipo, o que o torna fácil de neutralizar. Normalmente adquirimos imunidade para este vírus B em idade muito precoce e não é habitual surgirem novas espécies porque o tipo B muta muito lentamente. O Influenza C é muito incomum, afecta porcos, humanos e cães mas normalmente só causa doença ligeira em crianças muito jovens.





Falemos agora dos subtipos ou serótipos. Porque é que se chama ao vírus da Gripe A o vírus H1N1? Então passo a explicar. Já disse acima que as 2 principais glicoproteínas da cápsula do vírus eram a Hemoglutinina e a Neuroaminidase. Delas vem o H e o N do subtipo. Agora o número está relacionado com os seres vivos que a estirpe infecta. Lembram-se de que a Gripe A se chamava anteriormente Gripe Suína? Pois é, o subtipo H1N1 significa que este vírus afecta porcos, aves e humanos. Já se tivermos o subtipo H2N1, quer dizer que a hemoglutinina é sensível ao teste apenas em humanos e aves, enquanto a neuroaminidase é sensível em porcos, aves e humanos. Com o subtipo H5N1 passa-se o mesmo. H3 quer dizer que o vírus também afecta cavalos. Pelo quadro acima pode-se ver as múltiplas combinações: só dizer que só as estirpes com H1, H2, H3 ou H5 e N1 ou N2 é que são patogénicas em humanos. As infecções por H7N7, por exemplo, são muito incomuns e são resultado, muito provavelmente, da ingestão de galinhas contaminadas. Só para dizer ainda que é a hemoglutinina que determina quais as espécies uma estirpe pode infectar e onde no trato respiratório o vírus vai-se alojar. Por exemplo, H1 sugere que o vírus se aloje nas vias aéreas superiores, como o nariz e a garganta. Já H5 indica que os receptores estarão em profundidade, nos pulmões, o que torna a estirpe H5N1 muito letal causando pneumonias atípicas mas sendo difícil de transmitir.

Tratamento é feito com recurso a drogas como o tão conhecido oseltamivir (Tamiflu) e o zanamivir, inibidores da neuroaminidase e amantadine e rimantadine, inibidores da M2. Recomenda-se descanso, tomar bastantes líquidos e talvez paracetamol para baixar a febre e aliviar o mau-estar. Prognóstico: 1 semana de recuperação, desde que não haja complicações.

Outra coisa que toda a gente sabe: a gripe afecta principalmente crianças muito novas e idosos, mas pode afectar qualquer pessoa. Todos os anos, de acordo com a OMS, dezenas de milhares de pessoas apanham a gripe. Em termos epidemiológicos, já se sabe que a gripe tem preferência para aparecer em épocas de frio (Inverno e Outono), sendo por isso chamada de doença sazonal. Mas enganem-se se pensam que é principalmente por causa do frio que ele aparece: não, o vírus até gosta do quentinho. O problema é que nós também. Como nos recolhemos do frio em casa, o contacto directo entre pessoas é mais frequente, propagando a doença. Claro que o frio tem um papel importante mas não na propagação da doença: o frio seca as mucosas, baixando a defesa do nosso trato respiratório ao vírus.



Falando agora daquilo que era perguntado na sondagem: «Quais as consequências da gripe A?» A mais óbvia já falei, das consequências demográficas. Apesar de toda a visibilidade que tem tido nos mídia portugueses (os ‘profetas da desgraça’), a gripe A causou, para já menos de 7500 mortes, o que dá um total de 0,007 milhões. Muito pouco, se comparada com outras pandemias mais graves. Além de que mais de 85% dessas pessoas tinham saúde debilitada por outras condições. Portanto, não é com as consequências demográficas que nos devemos de preocupar mais. Consequências económico-sociais? Obviamente que sim. O vírus Influenza (no geral, não só a gripe A) produz custos directos devido à perda de produtividade e associado tratamento médico, juntando-se custos indirectos devido às medidas de prevenção. Portanto, pessoal doente falta ao trabalho ou se for ao trabalho não rende o suficiente, além de que pessoal médico mobilizado para o tratamento da gripe, com os devidos instrumentos e medicação, custa dinheiro. Além de que pessoal com gripe é pessoal infeliz, deprimido, maldisposto e descontente. Outra ideia a ficar no ar… Se houvesse uma pandemia tão grave como a da Gripe Espanhola, quais os sectores que ficariam em maiores lençóis? As minhas apostas? Hospitais, bancos e as indústrias primárias. A economia ficaria em sobressalto com tanta gente doente – e morta – e o pessoal médico também, por ter de atender a todos os casos e não haver condições suficientes para os fazer. Já as indústrias primárias seriam as mais afectadas a meu ver porque são as que empregam os cidadãos com piores condições de vida, logo os que se preocupam menos com a higiene e o bem-estar e portanto os que mais facilmente ficam doentes. Embora os primeiros estudos já estejam a ser feitos, ainda é cedo para avaliar a influência económica do vírus da Gripe A.




Portanto, nada que se preocupar de mais com a Gripe A. É um vírus comum, com um tratamento eficaz (apesar de já existirem casos que resistem ao Tamiflu) e que, desde que diagnosticado precocemente e os doentes não terem sistemas imunocomprometidos, passa facilmente.

3 comentários:

Lídia disse...

Jorge, menos Medicina :P é um bocadito deprimente estar a ler o teu post e a pensar que tenho de estudar nomes de bactérias baaaah. por muito importante que seja, é tãããoooo seca --'
no entanto, o post está redigido de forma exímia, não poderia ser + esclarecedor!

Jorge Rodrigues disse...

LOL eu sei, exagerei na dose -.-'

Eu estava a fazer 1 trabalho sobre o Mycobacterium Tuberculosis para Micro Prática (só mesmo a nossa prof para pedir para «apadrinharmos» um microrganismo) e comecei também a escrever esta coisa sobre a Gripe A. Só que vá, entusiasmei-me. E escrevi paí umas 4 páginas de Word (sobre o M. Tub., foram 7! Para uma apresentação de 2 min! LOL)


Mas sim, tá um post muito longo e muito Medicina-like, mas enfim, foi o que se arranjou x)

Diana Almeida disse...

Jorginho, mê filh:
Tantos posts de uma vez é para matar um ser humano normal..
Este da gripe, tem que ser lido com muita calma e paciência.. Daí que.. ainda não fui capaz.. Sorry!!

No entanto, ainda bem que regressaste em grande, abrangendo todas as áreas ciêntificas (e não só) que te competem.. :)
Agora.. só falta trabalhar a capacidade de síntese.. De resto.. Parece-me bem!! :)